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Eu quero tudo.

"Fala, fala, fala. Estou muito cansado. Já não identifico nenhuma palavra no que diz. Apenas me deixo embalar pelo ritmo de sua voz, dentro dessa melodia monótona angustiada perplexa repetitiva. Quase três da manhã. Não temos aonde ir, nunca tivemos aonde ir. Um nojo, vezenquando me dá um asco
— nojo é culpa, nojo é moral
— você se sente sórdido, baby?
— eu tenho medo, não quero correr riscos
— mas agora só existe um jeito e esse jeito é correr o risco
— não é mais possível — vamos parar por aqui
— quero acordar cedo, fazer cooper no parque, parar de beber, parar de fumar, parar de sentir
— estou muito cansado.
— não faz assim, não diz assim
— é muito pouco
— não vai dar certo
— anormal, eu tenho medo
— medo é culpa, medo é moral
— não vê que é isso que eles querem que você sinta? medo, culpa, vergonha
— eu aceito, eu me contento com pouco.
— eu não aceito nada nem me contento com pouco
— eu quero muito, eu quero mais, eu quero tudo. Eu quero o risco, não digo. Nem que seja a morte."

(in Anotações sobre um amor urbano)

Feliz Aniversário Caio, onde você estiver...

"Mas rapazes e moças assim não costumam deixar rastros, e ambos já tinham sumido em suas esquinas de ladeiras súbitas e calçadas maltratadas. Acima deles, nuvens cada vez mais densas escondem súbitas o anjo. O céu de chumbo, onde não seria surpresa se no próximo segundo explodisse um cogumelo atômico, caísse uma chuva radioativa ou desabasse uma rajada de napalm, parecia mesmo o céu de Saigon, quem sabe pensaram. Embora, de certa forma, eles nunca tivessem estado lá."

(Sob o céu de Saigon)

O que fica

"Depois de todas as tempestades e naufrágios, o que fica de mim em mim é cada vez mais essencial e verdadeiro."

Foda-se

"Escuta aqui, cara, tua dor não me importa. Estou cagando montes pras tuas memórias, pras tuas culpas, pras tuas saudades. As pessoas estão enlouquecendo, sendo presas, indo para o exílio, morrendo de overdose e você fica aí pelos cantos choramingando o seu amor perdido. Foda-se o seu amor perdido. Foda-se esse rei-ego absoluto. Foda-se a sua dor pessoal, esse seu ovo mesquinho e fechado."